quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um Poema de José Gomes Ferreira que adoro...

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

(José Gomes Ferreira)


2 comentários:

Sonhadora disse...

Simplesmente sublime este poema de José Gomes Ferreira.
Mas gosto também muito do que escreve...seu.
Sonhadora

Moonlight disse...

Meu amigo,

Que lindooooo!
Como eu gostava de um dia morrer assim....Aliás acho que deveria acontecer assim mesmo a todos os seres humanos.
Não conhecia este belo poema,mas fiquei fã!
Vou leva-lo comigo,sei que não te importas!:)
Cuida de ti meu amigo,sinto uma certa nostalgia por aí....

Bjinho cheio de luar